- 2 ºC lá fora! E isso é só o começo..
Saí de Santos logo depois do almoço, na quinta-feira, e quando cheguei em Guarulhos, com meu pai, a Lu já estava lá. A gente foi pra fila do check in e depois, enquanto meu pai continuava na fila, a Lu foi comigo nas casas de câmbio pra trocar o dinheiro que eu ainda tinha em real. E a gente conversou um pouco, e ela também me entregou uma carta pra eu ler durante o vôo, que eu li e reli umas 547 vezes, naturalmente. A gente conseguiu se despedir, aos trancos e barrancos em alguns momentos, mas acho que foi tudo válido. No fim das contas, todas as coisas ruins que aconteceram, acabaram servindo pra unir ainda mais a gente. Foi bem estranho ir embora sem ela, é bastante estranho ter ido embora sem data pra voltar. Mas, em meio a tantas promessas, a tanto sentimento, foi menos ruim partir.
Dormi por boa parte do vôo, desci pela manhã em Toronto, voltei no tempo 3 horas (eram 8 horas da manhã e, de repente, puf!, o relógio voltava para às 5), e eu deveria então fazer a conexão para Montreal, depois de passar pela Imigração e também de retirar as bagagens.
Saí da Imigração já pensando em deixar o Canadá. Sério. Eu não quero passar por isso de novo. O cara me perguntou coisas da minha vida inteira, e às vezes me perguntava mais de uma vez, como se achasse que eu estivesse mentindo, e ele me olhava de um jeito horrível, como se, sei lá, eu estivesse escondendo algum tipo de segredo sórdido. E eu já estava nervosa, e o sujeito, digamos, não estava muito preocupado em me acalmar, e tudo isso em inglês, então, é óbvio que nem conseguia falar direito, não conseguia responder todas as coisas que eu pensava, porque eu tinha que traduzir tudo pra esse meu inglês capenga. Ele me perguntava o que eu vinha fazer aqui, e qualquer coisa que eu respondesse, ele não acreditava. E ele dizia assim mesmo, que não acreditava. Ele perguntou umas 500 mil vezes se eu ia embora mesmo depois de 6 meses. Uma espécie de tortura psicológica, uma pressão horrível!! E eu sei que o cara não foi escroto comigo nem a metade do que poderia ter sido, eu sei que muita gente passa por coisa muito pior do que eu passei, mas assim, mesmo isso, mesmo esse arroz-com-feijão da imigração, sério, é bastante ruim. Não dá pra entender. Aquele cara da imigração se achava uma espécie de Deus, investido do poder de decidir o destino da humanidade que, porventura, caísse nas mãos dele. Ali eu entendi que, por muito pouco, eu poderia ter voltado. Ele poderia ter me mandado de volta. Acho que eu chutaria o saco dele se ele me mandasse de volta.
Poderia ter sido incrivelmente pior, eu sei, mas foi ruim o bastante para eu quase entrar numa quase crise de pânico, saí daquele lugar pavoroso (a imigração, no aeroporto) tremendo inteira, sem saber direito pra onde eu estava indo. E, depois disso, o melhor cigarro da minha vida. Só conseguia pensar em ficar no Canadá o tempo suficiente para conseguir mais dinheiro para ir embora, porque eu posso ter vários problemas na Europa, mas, pelo menos, não vou ter que passar por nenhum desses estagiários de Deus, investidos do poder de decidir sobre a vida das pessoas.
Cheguei em Montreal bem cedo, a Karina me esperou no aeroporto, e depois de deixar as malas na casa dela, e de telefonar pra minha mãe, a gente foi andar pela cidade. Adorei Montreal! Quer dizer, estou claramente naquela fase de adorar qualquer coisa, e qualquer ida à padaria já é uma super e emocionante aventura. E conhecer a cidade junto com a Ka é particularmente mais interessante, porque, pelo caminho todo, ela ia me contando coisas, me apresentando mesmo todo o lugar e as questões daqui.
Voltamos pra casa cedo, eram umas 3 da tarde, mas pra mim já eram 6, e já eram 6 da tarde de um dia super cheio, eu estava podre. Aliás, acordei mega cedo hoje também, e são apenas 10 horas, mas eu ainda tenho a sensação de que é mais tarde.. são apenas 3 horas de diferença de fuso horário, mas meu corpo ainda está completamente confuso com isso. Chegando em casa, a Ka fez pra mim torrada com pasta de amendoim e geléia de morango; segundo a Ka, todo mundo come isso por aqui e, sério, não é a toa. A pasta de amendoim certamente nasceu para a geléia de morango, esse negócio é fenomenal!!!
Menos dois lá fora, e a casa continua super quente, mesmo com a janela da sala aberta. É muito maluco isso, porque, mesmo sem aquecedor, tudo continua aquecido, porque a própria arquitetura dos lugares é toda pensada para reter calor. Quero ir hoje tirar fotos no bairro dos judeus!! Aliás, eu estava lendo ontem no avião, no Canadian Post, como é uma questão complicada essa coisa dos vários grupos que moram em Montreal, dos judeus, muçulmanos, indianos, enfim, porque essas comunidades são super numerosas aqui e daí acabam pipocando vários conflitos entre os diversos costumes e as leis daqui. Agora, aqui no Canadá, não adianta, quem matar alguém em nome da religião, ou espancar mulheres em nome da religião, já era, não vai ter essa de se entender que é um costume e bla bla bla. Achei engraçado esse tipo de notícia, e o tipo de repercussão que essas questões parecem ter aqui, porque, definitivamente, não seria uma coisa muito típica no brasil, apesar de no brasil a gente também ter várias pessoas de vários lugares do mundo, enfim.
Fui dormir bem cedo ontem, mas antes acabei telefonando pra Lu… fiquei bem feliz de ouvir a voz dela e tal mas, ao mesmo tempo, me deu um aperto tão fundo, de ficar longe dela, da gente acabar se perdendo, e de toda a ajuda do universo que a gente vai ter pra isso acontecer. Queria tanto ela aqui comigo, descobrindo o mundo junto comigo. Não sei se eu esqueço tudo, quer dizer, se eu tento esquecer, ou se eu tento pensar que enfim, vai ser como a gente decidiu que seria, uma questão de tempo pra gente ficar junta. Era o que eu mais queria na vida.
De qualquer forma, tanta coisa pra fazer! Quero arrumar um emprego logo, de preferência antes que o pouco dinheiro que eu trouxe acabe completamente, quero arrumar aonde morar logo… além do apartamento da Karina não ter tanto espaço assim, ela mora meio longe do centro da cidade (uma meia hora, na verdade, de metrô), mas eu queria morar mais ali por perto, enfim, viver mais aonde a cidade pulsa mais. E estou louca pra conhecer mais pessoas, e falar menos português, porque, com a Karina do meu lado, é como se estivéssemos em São Paulo e a Ka estivesse me visitando lá… acho que quando eu começar a trabalhar mesmo, enfim, daí a coisa toda da língua deve engrenar de verdade.
I’ll be back!
:)
Ueba! Estava mesmo esperando por notícias da sua chegada! Aproveite muito!!!!!!!!!!!! Beijocas, Má
Comment por Má — 15/11/2009 @ 09:15 |
Posso compartilhar do sofrimento que a imigração lhe fez passar? Depois de passar um mês tentando, sem sucesso, comer pimenta (pois até o café da manhã dos indianos é MUITO apimentado) e impedido de morder as vacas que passavam em minha frente todos os dias, só conseguia pensar em churrasco, amigos, cerveja, em todo aquele ritual maravilhoso em homenagem aos bovinos. E não é que a imigração não nos deixou embarcar de volta pro Brasil? Até hj não há uma explicação oficial pro que aconteceu. Eu achava que aquele mês tinha sido foda, mas mais foda foram os outros dois dias que passei com meu camarada lamentando em um país onde a gente não queria ficar mais. Imagino que seu cigarro foi o melhor do mundo, assim como lembro até hoje do sabor do primeiro pedaço de carne que comi quando voltei pra casa.
Bjos e sorte aí
Comment por Tiago Almeida — 20/11/2009 @ 14:15 |