o caderno de patrix – agora, na outra terra da Rainha.

09/11/2009

ando devagar, porque já tive pressa

Mais ou menos como nos tempos de faculdade, quando eu tinha uma prova pra estudar, um trabalho pra fazer nascer, e eu sabia que o momento em que eu começasse seria o começo de longas horas de concentração e desespero, então, eu o postergava o máximo que eu podia. Se não me engano, era o trabalho de História Contemporânea I, e eu assisti aos Trapalhões e o Mágico de Oroz na sessão da tarde, depois Malhação, depois todas as novelas e o Jornal Nacional, depois o filme que se seguia, depois o Jô Soares e depois ainda o concurso de Miss Universo, pra depois, lá pra depois das duas da manhã, sentar no computador pra escrever. Eu tirei 10 no trabalho. Tudo bem que a professora gostava de mim o suficiente pra me dar 10 em qualquer coisa que eu fizesse, mas fiz um bom trabalho anyway.

Preciso terminar de arrumar as minhas coisas aqui em Campinas para ir embora. Ir embora de Campinas depois de 7 anos! Não consigo acreditar. Ainda ontem, separando alguns livros, achei o Manifesto Comunista, e, dentro dele, um bilhete de ônibus quase amarelado, de abril de 2002, a primeira vez que fui a Santos depois de me mudar pra Campinas. A maioria das pessoas não consegue acreditar que eu tenha me desfeito dos meus livros, mas o que eu ia fazer com eles? Mete-los em caixas para quando, talvez um dia, eu voltar? De que servem livros em caixas? Eu quero que meus livros sejam lidos, e por isso eu os deixei com pessoas que vão saber o que fazer com eles: abri-los. Mas ainda sobrou tanta coisa… tanta lembrança, tanta caixa, tanta poeira. Minha rinite até se adiantou ao processo, e meu nariz já começou os ensaios da escola de samba que se instalou nas minhas vias aéreas.

E é mais ou menos como se arrumar tudo fosse como entrar no avião. Está tudo arrumado, as malas, os documentos, tudo em Santos, esperando que eu volte para ir embora. Aqui em Campinas o que sobrou é tudo o que não vou levar, é tudo o que ainda não foi doado, muita coisa que vai pro lixo, outras que vão pra quem quiser. Mas ainda são coisas que me prendem, ainda são coisas que eu tenho a fazer aqui, e a sensação é de que, quanto mais eu demorar, mais eu vou ficar, e eu quero tanto ficar! Não por ter me arrependido da decisão de ir embora, mas por muito amor a tudo o que foi a minha vida aqui, porque de repente, daqui a pouco, o Hori pode aparecer aqui no quintal com o violão e song book dos beatles. Então, eu me arrasto pelo dia como se tentasse fazê-lo de borracha, para estender o tempo, para olhar tudo como se fosse possível apreender todos os detalhes para levar comigo.

Erro número 98, do capítulo dos erros fatais: eu não deveria ter ficado um mês sem trabalhar. Perdi completamente qualquer senso de rotina, de horário, todos os dias viraram domingos, as noites viraram dias, os dias viraram noites, tudo foi se invertendo, num desespero de querer fazer tudo ao mesmo tempo, de ver todas as pessoas, de ter todas as conversas. E se todas as conseqüências físicas já foram bastante sintomáticas – acho que eu não sobreviveria mais um mês vivendo desse jeito, o resultado final foi que eu fiquei completamente perdida, e não consegui sequer dar conta dos dois únicos trabalhos que me propus a conceber. E eu tive tempo, eu tive material, e tive também idéias fantásticas, mas não tive a decência de sentar no computador e produzir.

O erro numero 99, do mesmo capítulo supracitado, foi ter caído no conto da festa de despedida. Eu nunca mais vou promover festas de despedida, e eu deveria escrever isso pelo menos uma centena de vezes num quadro negro. Porque ao mesmo tempo que foi bastante especial ter reunido tantas pessoas queridas, a idéia da última vez também me foi particularmente enloquecedora. Porque eu posso voltar quando eu quiser, mas eu não quero voltar tão cedo, e não ter uma data para voltar reproduz o mesmo efeito mental de nunca mais voltar.

Dentro de todo o paradoxo de não querer ir embora, mas tampouco querer ficar aqui, eu poderia pensar que, por exemplo, eu voltaria em um ano, mas a idéia de voltar em um ano também me assusta, porque se, antigamente, um ano representava muita coisa, hoje, um ano é uma semana. Se um milhão de coisas mudam dos 18 pros 19 anos, dos 26 pros 27 tudo ao meu redor continua exatamente igual, e isso porque eu é que não mudei, porque ainda que os últimos dois anos tenham sido um período de profundo aprendizado, as novas idéias agora que me aparecem se sentem obrigadas a respeitar as antigas e, trocando em miúdos, eu já sei o que eu sou e o que eu quero. Era mais fácil na época das mini-certezas. Porque de repente, eu me vejo encarando todo um desejo de vida e de descoberta muito maior do que qualquer projeto de entrar numa empresa e fazer carreira, ou de escolher qualquer tema e defender qualquer mestrado, ou de prestar qualquer concurso, arrumar um marido e fazer filhos.

Não é exatamente que eu esteja perdida e sem saber o que fazer da vida. De certa forma, a encruzilhada é exatamente aonde eu queria estar, porque é uma forma de ver vários caminhos, é uma forma de seguir vários caminhos, e, no fundo, eu sempre me preocupei muito mais com o caminho do que com a chegada. E esse caminho que eu mesma escolhi, é tão fácil seguir, por não ter aonde ir… a música que o Hori escolheu pra mim, de despedida, não poderia fazer mais sentido.

 

1 Comentário »

  1. Patrícia, sabe o que te desejo nesta desejada e estranha caminhada? Te desejo o MUNDO INTEIRO… Um enorme abraço…
    Karina

    Comment por Karina — 15/11/2009 @ 15:47 | Responder


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